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Lideranças e instituições anárquicas

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O que fazem os humanos felizes? Os prazeres (do poder, do sexo e do dinheiro – lícito e ilícito) ou a prática das virtudes (da ética)? Os humanos nasceram para ser virtuosos ou corruptos?

Quem enfrentou e respondeu essas perguntas, no século XVIII, foi Charles de Secondat (barão de Montesquieu), em suas Cartas persas, onde está a clássica narrativa de um povo árabe fictício (povo troglodita – povo das cavernas).

A nossa familiaridade com cada momento histórico, assim como nossos vícios ideológicos, frequentemente nos deixam cegos. Esquecemos que a ética é fator fundamental para a prosperidade da nação, para o crescimento econômico e moral, para a sobrevivência e a coesão social.

De acordo com a fábula de Montesquieu o povo troglodita teve uma fase de anarquia, depois veio a harmonia (respeito aos valores éticos) e finalmente retornou à anarquia. As fases anárquicas narradas valem para nós como espelho.

No Brasil colônia fomos mais animais que humanos: maus e ferozes, escravagistas, sem nenhum princípio de equidade e justiça. Na fase dos Impérios tínhamos “reis” de origem estrangeira e governança aristocrática oligárquica. O último foi destronado e expulso do país (eliminando-se assim a família real).

Por meio de um golpe civil-militar implantou-se a República (1889), nunca apaziguada. Nos 127 anos pouco republicanos tivemos: golpe militar na origem, governos oligarcas (República Velha), golpe militar em 1930 (Getúlio), golpe militar dentro do golpe em 1937 (Estado Novo), democracias populistas (1945-1963), golpe militar em 1964 e Nova República, inteiramente velhaca (de 1985 a 2016).

Desde o advento da República nossas instituições funcionam precariamente. Com frequência não abrimos mão da nossa índole selvagem e rapinante. Nossas lideranças (políticas, econômicas, financeiras e corporativas), de modo proeminente, não obedecem às leis e procuram cuidar dos seus interesses privados (sobretudo quando lidam com o dinheiro público).

A anarquia chegou a tal extremo que a população troglodita procurou um ancião para lhes orientar (e comandar). Era muito respeitado por sua longa vida de virtudes. O ancião disse: “Vossa virtude (trogloditas) começa e pesar-vos (…) sem isso não conseguíreis subsistir e cairíeis na mesma desgraça de vossos primeiros pais. Mas esse jugo vos parece penoso demais: [em lugar de serem virtuosos] preferís ser submissos a um príncipe e obedecer a suas leis, menos rígidas que vossos costumes [éticos]. Sabeis que então podereis satisfazer vossa ambição, adquirir riquezas e enlanguescer numa frouxa voluptuosidade; e, contanto que eviteis cair em grandes crimes, não tereis necessidade de virtude” (Montesquieu, Cartas persas, cap. XIV).

As lideranças que elegem, em lugar do caminho da ética, a via única das leis, sem criar instituições honestas e eficientes, desobrigam-se de perseguir o máximo moral para viverem apenas dentro de um mínimo legal (E. Giannetti). Sem instituições fortes, esse mínimo legal se precariza a ponta de colocar em risco sua sobrevivência e a coesão social.

No Brasil independente (1822) nossas lideranças e instituições (políticas, econômicas, jurídicas e sociais), em regra, sempre foram anárquicas. Valem mais as relações de poder e dos poderes que a preocupação de uma ética pública de valores comuns. Por isso mesmo é que estamos sempre muito perto do princípio da nossa história colonial marcada pela corrupção assim como pela falta de cooperação comum.

No nosso caso, sem guerras externas, são nossas próprias forças internas que estão minando nossa possibilidade de convivência sob uma ordem decente (ver E. Giannetti, Vícios privados, benefícios públicos?). Estamos nos dizimando a cada dia, como a Ilha de Páscoa. Será preciso esperar o próximo passo da violência política generalizada para mudarmos o rumo do Brasil?

CAROS internautas que queiram nos honrar com a leitura deste artigo: sou do Movimento Contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e recrimino todos os políticos comprovadamente desonestos assim como sou radicalmente contra a corrupção cleptocrata de todos os agentes públicos (mancomunados com agentes privados) que já governaram ou que governam o País, roubando o dinheiro público. Todos os partidos e agentes inequivocamente envolvidos com a corrupção (PT, PMDB, PSDB, PP, PTB, DEM, Solidariedade, PSB etc.), além de ladrões, foram ou são fisiológicos (toma lá dá cá) e ultraconservadores não do bem, sim, dos interesses das oligarquias bem posicionadas dentro da sociedade e do Estado. Mais: fraudam a confiança dos tolos que cegamente confiam em corruptos e ainda imoralmente os defende. 
  • Anonime Fasano

    e vc não é contra os juízes ladrões que recebem acima do teto salarial? Isso incluiria a maioria deles. Os que deveriam defender a lei, fazem manobras juridicas pra tirar proveito próprio. Indignação seletiva é o problema mais triste! Não há vida certa no mundo errado, quando todas as leis são o próprio instrumento de roubo e opressão.

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